domingo, 5 de setembro de 2010

Carla

Ela também era uma mulher dourada. Melhor, platinada.
Dessas que dita moda. A primeira a pintar as unhas de rosa chiclete e azul cobalto. A usar pulseiras de couro com cristais (que nos iludiamos serem swarovski). A única demente o suficiente para fazer das sombrancelhas uma tatuagem.
Falava porra e caralho, mas arrematava o dizer nos chamando de "chuchu" ou "flor". Era mesmo de aparentes contraditórios. Estranho pra você? Demonstração de carinho para nós. Talvez, reatividade seja o forte do nosso grupo. Ou estejamos num outro nível do "estar com".
Era de gêmeos. E como bom espécime desse grupo, seu sobrenome era inconstância e sedução.  Ora dieta, ora chocolate. Ora religiosa, ora mundana. Todo tempo envolvente.
Avolumava uma sala, uma mesa. Todo o ambiente ao seu redor. Bolsas, sacolas, garrafa e vitaminas. Bobis de cabelo, corretivo e creme anti-rugas.
Não ia ao trabalho. Ia a uma festa. Fazia dos nossos encontros celebração. Se divertia. Nos divertia.
Se amava? Só amava. E trepava, como ela mesma gostava de dizer. E todas as variações de demonstração de afeto que podemos imaginar.

Ficou uma saudade. Um riso ecoando no abrigo e em nossas conversas e em nossos corações.
Mas ainda somos as mesmas pessoas que copartilhavam com ela as piadas mais safadas, as puladas de cerca mais escabrosas. O prazer de sentir prazer e não se envergonhar por isso.
Assim, é proibrido deixar de rir por essas bandas. E falar sonoros caralhos. E deixar de colocar o nosso Moco Oco na berlinda. E mostrar que mulher é péssima quando é boa, gostosa e muito bem humorada.

Poucos do meu mundo real sabem sobre meu blog. Deste espaço que é catártico para tantos sentimentos, que de intensos, evito contactá-los no cotidiano.
Ela sabia. Me lia. Me incentivava. Lesa, nunca aprendeu a comentar. E vibrava com as minhas juras de amor. Ansiava por meu retorno de SP. E antes que qualquer duvida me viesse a boca, ela dizia que o mais certo era ir e só depois neurotizar. Ah, nós os psicólogos e nossas formas bonitas de dizer: ligue o foda-se, meu bem!

Não sei se os bons morrem jovens. De certo, todos que amamos, bons ou não tão bons assim, morrem antes do que desejamos (se é que desejamos). Antes de nos despedirmos a contento. Antes de podermos perdir desculpas pela briga horrivel e palavras mal interpretadas.
Eu te odiei. E te matei dentro de mim mil vezes. Eu quis que você desaparecesse da face da minha terra.
Por bem, quase nada é do jeito que querermos. O tempo e você se encarregaram de me trazer pra perto novamente. E mais do que nunca, agradeço por não ter resistido a sua eterna sedução. Porque fomos felizes e cumplices como nunca antes. Porque acho que nos pedoamos em silêncio, com o novo.

Saber do seu sofrimento me consumiu por dias. Eu precisei do choro compulsivo. De te ver não tão bonita. De ver as flores te caindo sobre.
Ainda penso e rezo por você. Rezo pelo sucesso do Marcelo na tarefa de cuidar da "Mais Gostosa". Rezo também pelo André. E que sua obra na vida dele se fortifique.

Ainda consigo te escutar cantando, "minha irmã". E como cantavas mal.
Consigo te ouvir perguntando se eu sabia a estória daquela música derradeira. Eu não sabia, e de algma forma era a sua despedida também. Me faz muito sentido agora. 

Porra, filha, valeu pela carona. Boa viagem. Qualquer coisa, me liga.
Vai com Deus!




Não sei porque você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristezas vou viver
E aquele adeus não pude dar...
Você marcou em minha vida
Viveu, morreu
Na minha história
Chego a ter medo do futuro
E da solidão
Que em minha porta bate...


E eu!
Gostava tanto de você
Gostava tanto de você...


Eu corro, fujo desta sombra
Em sonho vejo este passado
E na parede do meu quarto
Ainda está o seu retrato
Não quero ver pra não lembrar
Pensei até em me mudar
Lugar qualquer que não exista
O pensamento em você...


E eu!
Gostava tanto de você
Gostava tanto de você...

 


 

9 comentários:

Franck disse...

Terminei de lê esse texto e as lágrimas embaçam a tela, as teclas, porque sei o que é a perda, a morte próxima, o adeus prematuro...
Meu abraço! Beijo-te e que a semana seja blues (pra nós)...

Cele disse...

Nossa! Lindo o texto! Lindo demais! Para quem conviveu com a morte como um tapa na cara, é impossível não se identificar! Coaduno do seu pensamento e entendo seu sofrimento. Força!

Blog Sozinha ou Acompanhada disse...

Sinto muito mesmo pela sua perda e pelos próximos a ela... Muita força pra vc. Minha amiga Irma é assim tb!
beijoca,
Mari.

Confissões de uma borboleta disse...

Uma linda despedida...
Toda a perda é dolorosa,
mas temos que acreditar na continuidade, tudo continua, em outro plano. Algo me diz que ela está feliz, como era por aqui.
Tenha força e fé.
Um abraço

Lily disse...

Vim aqui ver do que se tratava... eu estava na página do Franck.

Nossa, fiquei toda arrepiada. Estou com os olhos molhados. Vivo longe mas muito próxima da morte (um parente doente)e passei bem próximo dela, da morte, um tempo atrás. Sabe, na época, recebi um texto por e-mail, escrito pelo Pedro Bial, ele dizia que morrer cedo é uma piada de mau gosto. Que você tem uma consulta marcada para o dia seguinte com o dentista, tem contas para pagar, roupas penduradas no varal... e, de repente, outras pessoas estão mexendo em tuas gavetas, abrindo teus armários. Eu percebi tudo isso. Eu senti isso. Teria sido uma piada de extremo mau gosto, eu com duas crianças nos braços.

É muito triste, muito triste. Depois de um ano, a morte se aproxima de outro na família e decidiu não arredar pé e ficar por perto.

Eu também penso que morrer jovem é uma destruição ímpar para os que ficam.

Beijos no coração.

Eu não me importo de estar chorando agora. Eu não me importo de sentir emoção. Obrigada por deixar este post, obrigada por me fazer lembrar que a gente pode perder e muito nesta vida.

Gugu Keller disse...

A morte de alguém próximo, sobretudo se ainda jovem, é como o acender repentino de um possante holofote a um palmo de nossos olhos, tão há tanto confortáveis na ilusória penumbra do cotidiano.
GK

Márcio Ahimsa disse...

Eu sei que amanhã não existe,
que ontem já foi embora
e que agora, o que importa mesmo
é construir uma saudade a cada dia,
pois é sinal que valeu a pena...

Beijos, querida, a vida é essa porra mesmo ornada de muita risada, um caralho de estrada sem direção que às vezes nos leva a muitas risadas, notras tristes, rolam as lágrimas, um milhão de significados e tolices
que qualquer pessoa, dessas filhas da puta de legais, pra encher o coração da gente de falta.

Julio Cesar disse...

Oi Monica,
...hoje não M, porque M não cabe neste post. O post diz de uma perda...mas eu não vejo Morte. Morte, é uma palavra que inventaram para atribuir a algo que deixa de existir...e por tudo que li e já ouvi, 'Carla' ainda vive. E não me refiro a questões metafisicas... vive aqui... em você, nas pessoas com quem fez diferença... e comigo. Tenho sim toooda autoridade para falar assim da 'morte' e do que ela não faz a pessoas como a Carla, ou seja, matá-las. Entre inumeras perdas na minha família, sito a de meu pai(61a/1987) e meu irmão (39a/1993). Ambos vivem em mim, por tudo que contribuiram na formação da minha pessoa. Valores, pensamentos, são vivos, tal como tantos pensadores e escritores que se fazem vivos por meio de 'suas' obras. Infelizmente prendemo-nos ao corpo, queremos egoistamente ouvir o outro, vê-lo agir para 'sentí-lo' vivo. Bem sabes o quanto movo-me na direção contrária a isso. Se hoje me empolgo lendo os pensamento de Aristóteles, Platão, Kant... vivamente, porque não com aqueles que toquei, cheirei, beijei...? Já escutei muito Rock e bebi muita cerveja 'com' meu irmão (mesmo não tendo 'seu corpo' presente). Sei das musicas, do som que gosta (ele, musico da melhor estirpe), sei o suficiente dele para poder falar por uma tarde inteira e 'o deixar apenas escutando'.
Por tudo que li e ouvi, de Carla, assim como foi com meu irmão, meu pai, pessoas igualmente 'vivans', digo que 'a missão' dessas pessoas é indicar a direção que devemos seguir e que no trajeto, não esquecer de apreciar a tudo. Nâo é a toa que existe 'Iris'. Há tempos percebi que o tempo continua correndo mesmo enquanto dormimos. A vida foi 'feita' para viver e não para 'ajuntar' coisas. Essas pessoas mostraram-nos isso. Nâo li nada aí em referencia a 'posses' da Carla...
Ao meu pai...e idem ao meu irmão, não dei Adeus. Seus corpos ficaram inertes e inascecíveis antes. Ao meu irmão ainda pude dizer um 'volto logo...brother, ok?'

Obrigado por estarem vivos (vcs 3) dentro de mim e ensinar todos os dias como devemos viver.

Como bom Italiano, ao soar de duas notas já estou a marear... e assim, lendo a letra dessa canção, o choro mistura-se ao riso... e posso dizer:
'puta, voces (os 3) são foda!...

J.

Verônica Alencar disse...

Que Texto!!!!!!!! Fiquei muito emocionada com suas palavras... Perda n é fácil... mas sentir saudade é sinal de q foi bom,de q tudo valeu.


beijos