terça-feira, 8 de junho de 2010

Porque sou igual a tantas outras




Mãe é uma forma de ser, embora nem toda mulher que tenha parido queira ou consiga alcançar este estado. E alcançá-lo é algo particular e paulatino.
Parece que ser mãe desvenda a uma mulher (e a poucos homens também) um mundo diferente e inacessível para maioria dos seres. Ela é capaz de se sensibilizar com a desenfreada produção de lixo mundial, a gestão da água potável, os índices de soropositivdade para HIV na África, a criança que cheira  Thinner na esquina do seu confortável condomínio e com as falas mal-criadas dos personagens de desenho animado.
Mãe tem sido desejar solidão para morrer de saudade. Rir pro alto e escondido quando a punição deveria ser feita. É tudo junto ao mesmo tempo e acompanhado de pouquissimas certezas e muita vontade de acertar.
Ontem, ser mãe foi transitar da raiva ao medo em segundos. Ter voz áspera ao lembrar que moto é um meio de transporte inseguro. Que devia ter se livrado disso a muito tempo. Foi chorar ao ouvir do médico o indicativo de cirurgia no tornozelo. Procedimento simples. Mas o coração dela jamais sentiria isso nem que fosse uma mera imobilização. É o  pé do FILHO. Como o médico podia dizer "simples"?
Muita emoção para uma pequena sala de emergência. Ela estava ao alcance dos meus braços e mesmo supondo a sua dor, não consegui lhe tocar. Ela estava ao alcance dos olhos dele e ainda assim não pode vê-los lhe pedir desculpas. Silenciosa e profundamente.
Acho que tudo terminará bem daqui há alguns dias. Provavelmente, ele receberá visita de amigos e namorada em casa. Vão assinar o gesso. É de praxe. A raiva dela vai ter passado. O sofrimento diminuído. Vai ser mais um causo para contar para os filhos dele, para que eles saibam o quanto ele foi danado, lhe roubou o sono e lhe deu alguns cabelos brancos.
E alguma coisa naquela cena toda me fez lembrar que muita raiva e medo, grito e chora ainda há por vir na minha vida. Afinal, ser mãe não é padecer no paraíso?


3 comentários:

Franck disse...

Para quem queria um pouco de 'sal' no cotidiano... pena que de uma forma não muito agradável. Mas o fato é real ou ficção? Ouça Cazuza: 'você nunca ouviu falar em maldição/nunca viu um milagre/nunca chorou sozinha num banheiro sujo/nem nunca quis ver a face de Deus'. (Só as mães são felizes).
bj*

Franck disse...

Voltei, pq lembrei de um poema da Martha Medeiros: 'para a mãe que desabrocha, rosa/para a mãe que bem-me-quer, margarida/para a mãe que gosta de champanhe, tulipa/para a mãe que gosta de orquestra, orquídea/para a mãe que é um violão, violeta/para a mãe que não dorme, girassol/para a mãe que trabalha, sempre-viva/para a mãe que defende, boca-de-leão/para a mãe que é linda, lírios/para a mãe que gera, gerânios/para a mãe que ama, amor-perfeito'.

João Gilberto disse...

A experiência de ser mãe é mesmo um terreno sobre o qual nos homens nem sequer imaginamos tocar.

Bom texto, até mais doutora.

PS: Tens razão, somos muito danados mesmo. Menino é igual macaco de circo, vive por ai aprontando.